Cinco

I
De todas as coisas que ignoro, não saber aceitar a felicidade é a que mais me perturba. Porque é injusto, com meu passado, com o presente presente, com o futuro ignorado. É ilegítimo quando eu me lembro de toda a sorte que eu tive, de todos os desejos insanos realizados, de todo o amor reconhecido nas entrelinhas da história triste que eu inventei para burlar o conto de fadas. Ainda que eu seja estrangeira e a felicidade, a mim, destinada à clandestinidade, eu não tenho direito de continuar entoando essa tristeza em disritmia, a tal promessa desafinada que me precedeu sem licença. Desautorizo o simbolismo do enxoval. Quero desfazer o pacto semiótico do nascimento. Hoje, quero apenas aceitá-la.

II
Vou nos guardar na fluidez do ar que nos envolve em solstício. Poesia concreta a me banir do referencial. Não há resposta restante, porque não há mais dúvida. Eu percorri um labirinto cujo centro me encarou em espelho-esfinge. Fui devorada pelo reflexo que não me questionou, apenas me apontou a direção do abrigo. Fui envolta na bruma da renúncia, e há os momentos de pura razão quando era imaginada apenas a loucura. Eu quero querer, ainda que não. E quando eu volto os olhos à esfinge há uma paz indiscriminada. Há um caminho que desfaz o labirinto de paredes de algodão. Vamos morar ali.

III
Há música em todos os cômodos em que estou com você. De início, eu não reconheci a melodia, porque não fui ensinada a dançar no ritmo da vida, mas, quando tapei os ouvidos, descobri que meu corpo aprendeu a enxergar a onda e a mover-se na cadência inaudível do que não é permitido, mas que não se pode jamais impedir de dançar.

IV
[sob a luz azulada da poesia enunciada em estrelas, eu vivo a instransitividade de amar, e não há medo que impeça a força das águas. ainda que desviem o curso do rio, não podem impedi-lo de chover em outro lugar. eu chovo no mar.]

V
Dança comigo?

Sete faces desmedidas

Uma pessoa criou expectativas sobre mim.
Uma pessoa me esqueceu.
Uma pessoa se confessou.
Uma pessoa me idealizou.
Uma pessoa me abraçou como uma igual.
Uma pessoa viu em mim poesia.
Uma pessoa me agradeceu.
Uma pessoa confiou em mim.
Uma pessoa me chamou para dançar.
Uma pessoa me aceitou como eu sou.

O restante não entendeu nada sobre mim.
Decepcionei todas.

Louro-pardo

Há estrelas caídas na calçada. Na tristeza que carregam, o não estar no céu, em pertencimento próprio, é opaco, malabarista engolidor de brilho a espreitar corações esperançosos.

Fui ingênua, concluo, ao me iludir na tentativa de recolher estrelas. Não era o chão de fato, era ponta-cabeça, e algumas coisas não voltam a se equilibrar nunca mais.

***

Dos males de ser triste, o pior deles é o cansaço. Não a fraqueza inerente, a fadiga – quase fado – que se instala na alma. Desse pesar não morre o descontente, que não se cansa jamais de afundar-se. O que castiga é o tédio do forasteiro.

Achegam-se os desavisados ávidos por dispensar cuidados. Por segurar mãos, por apartar lamúrias. Abraçar as dores, estufar o peito, afagar os pensamentos funestos que escorrem pelos cabelos, estilhaçam os nervos e se derramam em lágrimas.

Só que sede não se mata com água salgada. A avidez vai se esvaindo, e as flores-estrela-cadente afagam pedidos que nunca ou quase nunca vão se realizar. Decadência calculada.

***

Quando criança, ressentia-se por não subir em árvore, as grandes árvores a espreitar a meninice desengonçada. Era um melindre sem fim a falta de destreza, a impotência dos músculos desajeitados a sustentar um saco de ossos sem graciosidade. Faltava-lhe a força que impulsionaria, faltavam-lhe as maneiras de flor que a suspenderiam em contemplação.

Descobriu, então, que reino vegetal e mineral têm formas distintas, que em pedregulhos só brotam ervas daninhas, e que algumas árvores, ainda que frondosas, têm raízes curtas e caem no vendaval.

Nasceu numa cidade de ventos fortes e florestas de eucaliptos. Nasceu em terras férteis, mas é rocha. Em um universo de astros com luz própria, cresceu buraco negro.

Fosse poeta, nasceria antes da invenção da escrita, hieróglifos de amor nas árvores pré-históricas. Fosse poesia, riscaria cavernas, caos não permitido no coração da terra escassa.

Não vingou.

Considerações sobre a lua

I

Não me lembro ao certo da primeira vez em que nos encontramos, mas me lembro exatamente do momento em que me dei conta da sua presença em gravidade. Força de atração mútua entre os corpos (celestes). Eu sempre mar, as ondas tentando chegar sem saber bem aonde. O não entender sinuoso das águas, substância farta, vaga, o acreditar-se fluida, imprevista, as certezas levadas no recuo da maré. “Existem alguns lugares do mundo em que a influência das fases da lua sobre as águas do mar é maior”. Descobrir-se oceano ao encarar a lua nova é ebulição. Deixar-se levar é alvoroço. Eu vaguei.

II

Quando sorri, são estrelas. A transbordar da boca, a borbulhar dos olhos. Os olhos, um céu em florescência, expansão dos infinitos que eu pressenti em devaneios, que eu ansiei na ficção que eu não soube escrever, mas planejei longamente. Ser envolto em estrelas é deixar-se luzindo no meio da noite, um querer fechar os olhos para resistir ao brilho, um ansiar por abrir os olhos e ser guiado. Desde que me conheço por gente, navego por estrelas, me oriento por constelações. As linhas imaginárias traçando paralelos entre o olhar e o céu da boca, um caminho de estrelas para percorrer. Estava desorientada, consenti a direção.

III

Nas fases em que muitos se perderiam, sou professa. É estranho pressentir-se na inconstância, volúvel movimento que desenhei muito antes do que escrevi. É um alívio antever vestígios. Da superfície, deduzir relevos, pressagiar rotas. Apontar, seguir viagem. Soa menos estranho persistir, considerar o relevo lunar, caminho que eu refaço de olhos fechados, cartografia natural. A superfície do abraço, o fechar-se em laços tão envoltos, deixou de lado o devir de satélite. Nas ondas que retornam, fez-se primário, lua cheia de sol a iluminar minhas jamais tardias sombras.

Dessa vez, não amanheci.

O nome das coisas

[Rascunhos do Caderno Terceiro]

A rua estava lavada, mas eu não vi um pingo de água cair. Eu não ouvi a chuva, eu não me dei conta dela, mas de alguma forma havia sentido no asfalto esfumaçado, nos carros embaçados e nas poças pegajosas de que eu nem tentava desviar. Eu fui levada de mim, me deixei ir embora, e a chuva era metáfora patética para me lembrar que eu precisava deixar que as coisas fossem também lavadas.

***

É difícil descobrir-se estrangeira. O olhar do outro pelo filtro do idioma desconhecido, do território não compartilhado.
O mapa difuso, o não estar em fronteiras amigas.
Eu desconheço o idioma que me partilharia, os olhos cansados de não alcançar o que se diz apenas com o sentimento de conter-se em limites geográficos.

Eu não me contenho. E eu não sou mais capaz de me expressar com desenvoltura na língua na  qual  alguém inventou que sou fluente.

***

De tanto analisar o relevo lírico das palavras, fui  proclamada geomorfologista das frases, cartógrafa da poesia.
Tão labirínticos os mapas, porém, que não há viajante disposto a guiar-se.

***

Eu acumulo palavras porque há (res)sentidos demais para nomear.

***

Estou escrevendo uma carta e gostaria que fosse endereçada a você.

Escoliose

eu não falo
e as palavras brotam, brotoejas, aliterações nulas da pele que tenta se camuflar
no desalinho congênito da coluna vertebral(mente deslocada)

“um pouco de lordose, a escoliose pronunciada, uma vértebra a mais”
a coluna-metáfora que me suporta quase grega, sempre estoica
não
consegue
mais
equilibrar
o peso
das palavras
raras

“uma válvula torta, que regurgita sangue”
o coração-pedra não sabe o caminho da natureza e
tenta a qualquer custo
mandar de volta o que acalenta
o sangue não chega às arestas
não aquece
o frio
que, de qualquer modo,
vem mesmo de dentro
sempre ouriçando os pelos
da menina dos pés invernais

“anêmica, um pouco, desde sempre”
fraqueza embrionária
que não coloca para fora
a profusão que desassossega
Pessoas diversas

“sensível à luz, à música alta, tem que dormir 8 horas”
o cérebro-insano desfaz-se
em
descargas
elétricas
proporcionalmente paradoxais
à quietude
da boca
e dos olhos
que não dormem jamais

“o fígado fraco, não aguenta misturar bebida”
nem mais um gole
de raiva com desesperança
ou impotência com mix de desilusão
a mistura letal
de ansiedade
com
supervalorização
da dor
que
às vezes
nem é sua

eu não escrevo
porque as palavras estão embalsamadas
no diagnóstico a ser recebido
na cadeira entrecortada
na atmosfera das mágoas
infantis
e lunáticas

[Eu choro bílis, tão visceral é meu pranto.]

Sete investigações sobre a vontade

I

Parecia agosto novamente. O vento, o frio na barriga, o não precisar entender. Parecia agosto, mas não havia tudo pela frente e a expectativa cessara. Qual era o tamanho da vontade, me perguntava, se ela não fora suficiente para mover o que parecia pronto para partir. Havia impulso, solo fértil, mas não havia água em profusão. Água com sal, notara, não fazia brotar nada senão saudade.

II

Estava chovendo. Eu ouço o barulho, um pingo insistente no canto da janela. No compasso da chuva, me perco a imaginar as gotas, pesadas gotas, escorrendo pelo lábio bem desenhado, pelo braço lânguido, pelos longos cabelos de uma cor que eu chamaria de qualquer coisa não cor, um tom em vestígio – deduzo que despercebo às vezes -. “Você é obsessiva”. Eu leio e todos os esses dançam nos meus olhos, escorrem com a chuva, curvas são perigosas no chão molhado. “(Um tapa)”. Eu sei, mas as gotas poderiam escorrer, talvez escorressem no dia, minha mão escorregou nas curvas. “Engole o choro e segue a vida. Não desapegue”. Eu desapego em ondas, não precisa dizer. Um olhar sob os óculos e a chuva. A imaginação é solo profícuo, a chuva alimenta. “Ambiguidade é especialidade nossa”. Ainda bem que eu me apego às palavras – e elas se apegam a minha vontade de dizer mais-.

III

Tem dias em que a gente se pega tropeçando nas mentiras, nos estilhaços dos olhos de vidro quebrado. O sangue aguado, que vira lágrima e já não tem vermelho para tingir o rosto, escorre, tropeçando nos vincos da pele que viveu demais, noites em claro demais. Foram as horas em que me deixei acordada esperando, sem saber o que viria. A vontade da vigília é um não querer . No sono, eu não me escondo, eu destroco os dizeres abafados, eu deixo de lado. Ao lado, investigo um dormir que não reconheço possível. O peso da calma me aflige. Num impulso, quero violar esse sono, não gosto de águas calmas. Minha fúria não combina com pouco vento. Quando nasci, foi vendaval.

IV

Enquanto eu observo o cata-vento, me pergunto o que seria dele se o vento cessasse. A ventania o justifica, mas também o estraçalha. No turbilhão, não vejo suas cores, as voltas espaçadas com perfeição, a feição de flor. Tudo se torna coisa só, vertigem. Não há mentira no vento, que se apaixona pela facilidade de movê-lo na direção em que quiser, mas há ressentimento por não poder deixá-lo para a brisa que apenas refresca, sem macular. Por me darem os braços não dados ao furacão, retiro o cata-vento e penso se há salvação pelo mal que tantas voltas causaram. Sinto muito que não. Sinto vontade de nunca ter sido tempestade.

V

Não havia mentira, disso se assegurara desde o início. Apesar de todo o esforço contrário, era preciso um canto de calma. No vão do abraço, havia a segurança que sempre lhe escapou – a vida sobre pontes, um eterno hesitar -. Os olhos de doçura, os braços de enrosco, três vezes o assobio no portão, o esforço com as palavras, a prontidão, a convicção, até mesmo o temporal. Só que tudo que é seguro demais é também custódia. Não quer dizer que eu não ressinta, mas ressentir, no dicionário, tem mais acepções negativas que positivas. Meu barco ressente-se também do mar.

VI

Perdi as chaves. Eram tantas as portas dali, e eu perdi a capacidade de abri-las. Ficar sempre do lado de fora, esperando que alguém lhe destrave a passagem, é angustiante. Foi metafórico perder as chaves por meses, sou patética em metáforas dias afora. A verdade, notei, é que deixei as chaves guardadas debaixo do travesseiro, na esperança de escapar pela janela. Depois que as encontrei num bolso qualquer, notei que até a vontade de escapar não existia mais. Quando é que Cecília vai me deixar, eu penso, e já recito em silêncio a adversidade da lua, que eu nunca perco.

VII

Sentir é a rainha de todas as vontades. Os impulsos, escudeiros, navegam o sistema nervoso e saltam pelas extremidades. A língua não articula a palavra à toa, porque é mensageira de soberana afoita. E tem olhos para ler os sulcos da pele, os poros ouriçados. O ar pesa em deleite porque vontade em demasia é substância volátil. E o olfato, ansioso espectador, arquiteta meticulosamente o caminho até a pele. Suspiro é inspiração à realeza. Sentir é rainha, porque perpetua-se em despotismo fecundo. E fecunda.