Louro-pardo

Há estrelas caídas na calçada. Na tristeza que carregam, o não estar no céu, em pertencimento próprio, é opaco, malabarista engolidor de brilho a espreitar corações esperançosos.

Fui ingênua, concluo, ao me iludir na tentativa de recolher estrelas. Não era o chão de fato, era ponta-cabeça, e algumas coisas não voltam a se equilibrar nunca mais.

***

Dos males de ser triste, o pior deles é o cansaço. Não a fraqueza inerente, a fadiga – quase fado – que se instala na alma. Desse pesar não morre o descontente, que não se cansa jamais de afundar-se. O que castiga é o tédio do forasteiro.

Achegam-se os desavisados ávidos por dispensar cuidados. Por segurar mãos, por apartar lamúrias. Abraçar as dores, estufar o peito, afagar os pensamentos funestos que escorrem pelos cabelos, estilhaçam os nervos e se derramam em lágrimas.

Só que sede não se mata com água salgada. A avidez vai se esvaindo, e as flores-estrela-cadente afagam pedidos que nunca ou quase nunca vão se realizar. Decadência calculada.

***

Quando criança, ressentia-se por não subir em árvore, as grandes árvores a espreitar a meninice desengonçada. Era um melindre sem fim a falta de destreza, a impotência dos músculos desajeitados a sustentar um saco de ossos sem graciosidade. Faltava-lhe a força que impulsionaria, faltavam-lhe as maneiras de flor que a suspenderiam em contemplação.

Descobriu, então, que reino vegetal e mineral têm formas distintas, que em pedregulhos só brotam ervas daninhas, e que algumas árvores, ainda que frondosas, têm raízes curtas e caem no vendaval.

Nasceu numa cidade de ventos fortes e florestas de eucaliptos. Nasceu em terras férteis, mas é rocha. Em um universo de astros com luz própria, cresceu buraco negro.

Fosse poeta, nasceria antes da invenção da escrita, hieróglifos de amor nas árvores pré-históricas. Fosse poesia, riscaria cavernas, caos não permitido no coração da terra escassa.

Não vingou.

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