Sete investigações sobre a vontade

I

Parecia agosto novamente. O vento, o frio na barriga, o não precisar entender. Parecia agosto, mas não havia tudo pela frente e a expectativa cessara. Qual era o tamanho da vontade, me perguntava, se ela não fora suficiente para mover o que parecia pronto para partir. Havia impulso, solo fértil, mas não havia água em profusão. Água com sal, notara, não fazia brotar nada senão saudade.

II

Estava chovendo. Eu ouço o barulho, um pingo insistente no canto da janela. No compasso da chuva, me perco a imaginar as gotas, pesadas gotas, escorrendo pelo lábio bem desenhado, pelo braço lânguido, pelos longos cabelos de uma cor que eu chamaria de qualquer coisa não cor, um tom em vestígio – deduzo que despercebo às vezes -. “Você é obsessiva”. Eu leio e todos os esses dançam nos meus olhos, escorrem com a chuva, curvas são perigosas no chão molhado. “(Um tapa)”. Eu sei, mas as gotas poderiam escorrer, talvez escorressem no dia, minha mão escorregou nas curvas. “Engole o choro e segue a vida. Não desapegue”. Eu desapego em ondas, não precisa dizer. Um olhar sob os óculos e a chuva. A imaginação é solo profícuo, a chuva alimenta. “Ambiguidade é especialidade nossa”. Ainda bem que eu me apego às palavras – e elas se apegam a minha vontade de dizer mais-.

III

Tem dias em que a gente se pega tropeçando nas mentiras, nos estilhaços dos olhos de vidro quebrado. O sangue aguado, que vira lágrima e já não tem vermelho para tingir o rosto, escorre, tropeçando nos vincos da pele que viveu demais, noites em claro demais. Foram as horas em que me deixei acordada esperando, sem saber o que viria. A vontade da vigília é um não querer . No sono, eu não me escondo, eu destroco os dizeres abafados, eu deixo de lado. Ao lado, investigo um dormir que não reconheço possível. O peso da calma me aflige. Num impulso, quero violar esse sono, não gosto de águas calmas. Minha fúria não combina com pouco vento. Quando nasci, foi vendaval.

IV

Enquanto eu observo o cata-vento, me pergunto o que seria dele se o vento cessasse. A ventania o justifica, mas também o estraçalha. No turbilhão, não vejo suas cores, as voltas espaçadas com perfeição, a feição de flor. Tudo se torna coisa só, vertigem. Não há mentira no vento, que se apaixona pela facilidade de movê-lo na direção em que quiser, mas há ressentimento por não poder deixá-lo para a brisa que apenas refresca, sem macular. Por me darem os braços não dados ao furacão, retiro o cata-vento e penso se há salvação pelo mal que tantas voltas causaram. Sinto muito que não. Sinto vontade de nunca ter sido tempestade.

V

Não havia mentira, disso se assegurara desde o início. Apesar de todo o esforço contrário, era preciso um canto de calma. No vão do abraço, havia a segurança que sempre lhe escapou – a vida sobre pontes, um eterno hesitar -. Os olhos de doçura, os braços de enrosco, três vezes o assobio no portão, o esforço com as palavras, a prontidão, a convicção, até mesmo o temporal. Só que tudo que é seguro demais é também custódia. Não quer dizer que eu não ressinta, mas ressentir, no dicionário, tem mais acepções negativas que positivas. Meu barco ressente-se também do mar.

VI

Perdi as chaves. Eram tantas as portas dali, e eu perdi a capacidade de abri-las. Ficar sempre do lado de fora, esperando que alguém lhe destrave a passagem, é angustiante. Foi metafórico perder as chaves por meses, sou patética em metáforas dias afora. A verdade, notei, é que deixei as chaves guardadas debaixo do travesseiro, na esperança de escapar pela janela. Depois que as encontrei num bolso qualquer, notei que até a vontade de escapar não existia mais. Quando é que Cecília vai me deixar, eu penso, e já recito em silêncio a adversidade da lua, que eu nunca perco.

VII

Sentir é a rainha de todas as vontades. Os impulsos, escudeiros, navegam o sistema nervoso e saltam pelas extremidades. A língua não articula a palavra à toa, porque é mensageira de soberana afoita. E tem olhos para ler os sulcos da pele, os poros ouriçados. O ar pesa em deleite porque vontade em demasia é substância volátil. E o olfato, ansioso espectador, arquiteta meticulosamente o caminho até a pele. Suspiro é inspiração à realeza. Sentir é rainha, porque perpetua-se em despotismo fecundo. E fecunda.

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