O nome das coisas

[Rascunhos do Caderno Terceiro]

A rua estava lavada, mas eu não vi um pingo de água cair. Eu não ouvi a chuva, eu não me dei conta dela, mas de alguma forma havia sentido no asfalto esfumaçado, nos carros embaçados e nas poças pegajosas de que eu nem tentava desviar. Eu fui levada de mim, me deixei ir embora, e a chuva era metáfora patética para me lembrar que eu precisava deixar que as coisas fossem também lavadas.

***

É difícil descobrir-se estrangeira. O olhar do outro pelo filtro do idioma desconhecido, do território não compartilhado.
O mapa difuso, o não estar em fronteiras amigas.
Eu desconheço o idioma que me partilharia, os olhos cansados de não alcançar o que se diz apenas com o sentimento de conter-se em limites geográficos.

Eu não me contenho. E eu não sou mais capaz de me expressar com desenvoltura na língua na  qual  alguém inventou que sou fluente.

***

De tanto analisar o relevo lírico das palavras, fui  proclamada geomorfologista das frases, cartógrafa da poesia.
Tão labirínticos os mapas, porém, que não há viajante disposto a guiar-se.

***

Eu acumulo palavras porque há (res)sentidos demais para nomear.

***

Estou escrevendo uma carta e gostaria que fosse endereçada a você.

Seu mimimi aqui.

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