Quando a verdade faz uma visita

A verdade vem a qualquer hora do dia, não se importa com sua capacidade cognitiva para recebê-la à porta, não diz boa noite – ou bom dia, desculpe o horário, o trânsito foi complicado, a viagem? ah, cansativa, cansativa, várias horas, o ônibus os passageiros a estrada perigosa e o medo? medo, medo, mas chegamos graçasadeus -, percebe o rosto desfigurado pelas lágrimas, um vale cravado na rocha da face, e lança apenas um olhar furtivo de desprezo pela fraqueza da pedra diante da água. Era somente água, dizem os olhos repulsivos da verdade.

Segure o choro, querida, diz a verdade enquanto me leva à cozinha. É feio chorar em frente às visitas. Eu não gosto de como a verdade rima, de como brinca, irônica, com minha incapacidade de me mostrar altiva, de me fazer presença quando só há em mim o que inexiste. Não fuja com as palavras, querida, diz a verdade ofendida. As palavras só sabem o caminho de volta, só sabem se amontoar de novo no dicionário, largadas dolorosamente umas sobre as outras. Definem-se? Não, amontoam-se, essa é a realidade sobre elas, querida, elas não levam a qualquer lugar porque para onde se vai não há o que se diga.

Eu posso sentir a confusão se formando entre o vapor que sai da comida. A confusão é minha. Eu conheço o gosto, mas nunca descobri como jogar as sobras dela fora. Eu começo a raspar as panelas, tento limpar os pratos, quebro dois copos e estilhaço uma jarra. A verdade me despreza a cada movimento, a cada esbarrão incontido, a cada farelo que macula o chão. A verdade não tem pena. E num gesto brusco dissolve toda a névoa. Não sobra confusão para encher um prato magrinho. Você acha a confusão ruim, querida, mas é o que lhe mantém viva. Sem a confusão que você cozinha com aparente despreparo e medida, você míngua, rareia. A confusão você até acha bonitinha, já que foi ela quem carregou suas culpas, querida. É ela quem carrega as culpas que, de fato, são suas.

No meio do cômodo, de repente, me vejo juntando os restos no chão. A verdade faz ânsias de me afastar e perde a rima. Na realidade, querida, você está sendo patética o suficiente para não conseguir receber-me em seus aposentos. Sem a confusão para me alimentar, encaro a verdade nos olhos. Não suporto o tom de arrogância dos ossos pontiagudos do rosto dela. Só suporto encará-la por pouco mais de um instante de lucidez. Veja bem, querida, assim se dá o real, você não consegue sustentar um olhar sem notar o quanto sou feia. Você não me suportaria nem para uma visita, minha cara, e eu vou deixá-la assim que o dia estiver disposto a me levar à burocracia da rodoviária.

Quando vira as costas, a verdade me mostra muito mais do que a cara que tentou antes me enfiar goela abaixo. A verdade está nua, por isso viaja de madrugada. A verdade está crua, e me faz cozinhar a confusão na esperança de se misturar aos vapores do cozido e lançar-se ao fogo, queimar ou se tornar mais palatável.

A verdade não diz verdade nunca, e recarrega-se por aí de sinônimos burros que não querem dizer metade do que a verdade pode falar.