Fonética dos beijos

*** Pela manhã

Hoje eu liberei meus dedos para fazerem o caminho proibido da saudade. Ele sempre começa com um som no ouvido, saído da memória do telefone tocando na tarde abafada. O telefone tocando infinitamente mais devagar que meu coração galopante. São duas letras o desatino da vida adulta. Só duas letras, num som que eu não sei imitar, mas que ressoa em ondas nos meus ouvidos ressentidos demais, surdos demais. Como é que eu ouvia o balbuciar das palavras mais baixas? Talvez leitura labial, talvez as palavras saíssem de mim antes de passar pelas suas cordas vocais.

Você sabia que “balbuciar” é sinônimo de “gaguejar”, mas que eu gosto mais do som do bê com o bê, da língua querendo roçar os dentes para pronunciar o cê? E que eu gosto de escrever palavras dentro dos beijos, numa fonética figurada na gramática da tua boca? Eu já imagino o olhar meio perdido – porque prefere se perder a demonstrar fraqueza (que me lembra de “franqueza”, que me lembra de você, mas só às vezes).

*** Na sombra

Eu estava sóbria, aliás, até ouvir dois acordes. Funciona também quando passa uma pessoa com aquele mesmo cheiro que eu acho que não é perfume, deve ser desodorante, mas eu tive vergonha de perguntar o que era. É disso para a textura. Alguém já te falou sobre isso? A textura da boca, que eu apenas presumia, antes de descobrir de fato que era onde eu gostaria de morar, de preferência com o sal das ondas que iam e vinham no meu estômago. Que âmago sensível o meu, que só da lembrança, só do nada das conexões neurais se pega em fúria, em rubor, em vontade de não voltar mais da memória.

Você sabe que eu chorei. Eu choro às vezes, por todos os motivos mais banais que você pode presumir, mas nessa noite de saudade eu sorri. Eu sorrio às vezes lembrando e vou ficar tímida de ter escrito isso. Sabe que ninguém acredita quando eu digo que sou tímida? Você saberia dizer a eles, porque me viu enrubescer, avermelhar, corar. Ainda não decidi que palavra prefiro, mas acho que gostaríamos mais da última.

Eu volto à textura aos poucos, porque é a lembrança menos distante. E me vem muito texto, porque esses radicais me barbarizam o tempo todo. Eu preciso mesmo de um texto para desopilar, para desoprimir os ombros. Só agora notei que Drummond adiantou o diagnóstico que viria anos depois: todas essas palavras que eu deixei de escrever na tua boca me causaram uma enxaqueca cervicogênica.

*** Depois da meia-noite

Hoje eu bebi e liberei meus dedos para fazerem o caminho sem volta da saudade.

3 thoughts on “Fonética dos beijos

  1. Greetings from California! I’m bored to death at work so I
    decided to check out your blog on my iphone during lunch break.
    I enjoy the information you present here and can’t wait to take a look when I get home.

    I’m shocked at how fast your blog loaded on my cell phone ..

    I’m not even using WIFI, just 3G .. Anyhow, excellent blog!

Seu mimimi aqui.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s