Sob encomenda do poeta

Amaram-se tão cedo que todas as histórias clichês de primeiro amor disputaram seus destinos de forma sanguinária.

Escaparam de todas.

Ao alcance dos olhos e em cantos encardidos, os romances todos começavam e terminavam como é do curso da vida.

Permaneceram intocáveis.

Beijaram-se maduros, na sapiência da contagem malvada do tempo.

Na narrativa invertida, todos os primeiros beijos vieram antes do beijo primeiro, censurado.

E, na noite sedenta de mistérios deslumbrados, incriminaram-se de poesia tardia.

E deixaram escorrer a areia movediça do dia, e fingiram que podiam recontar um conto de bobos.

Ouve: não há mais fadas; um amor que não se conta em meias palavras também não se mede em meia dúzia de beijos.

Não há contar que se baste. Não há história em nuvens.

Não se conta em dias, em poemas patéticos, em cartas de amor rasgadas.

Há os olhares cruzados, as mordidas de lábio, o abraço que tenta sozinho fundir os corpos.

Mas não há anos de cólera, dias nublados, outros desníveis corpóreos que o cessem.

Há outros goles, outras melodias, um tanto de peito rasgado.

Há outras bocas, outros dizerem, as memórias remendadas de tardes quentes e ouvidos ávidos.

 

Mas não se pode pedir história.

Num ponto sem nó, não há contar que se fia.

Em remendos, senhor poeta, não se faz poesia.