O que deixei de falar

Você me perguntou se eu não me contentava com palavras. E eu não consegui responder, porque fui colocada em um tribunal fajuto, diante de uma testemunha muda e opressora, porque minhas lágrimas, tolas e envergonhadas, se atrapalharam ao escorrer, transgrediram os vales do meu rosto e impediram qualquer sentido de sair dos meus lábios desnorteados.

Não que eu não esperasse pela voz alterada, pelo tom quase ríspido. Não que eu não lhe desse razão. Não é que eu não compreendesse as hipérboles, os pleonasmos, as frases que pareciam sair prontas de pensamentos arquitetados em outros tempos.

Não que eu não tivesse justificativas cabíveis, rubricáveis e legítimas. Não que a cada colocação eu não cogitasse uma resposta justa para ser estilhaçada em seus olhos vermelhos – eu não sabia se prestes a chorar ou apenas rubros diante do momento áureo da explosão –.

Não é que eu não quisesse ouvir aquilo ou que não fosse capaz de suportar verdades empurradas goela abaixo do meu orgulho.

É que eu não saberia conviver com o encerramento daquela conversa – monólogo com participações não especiais –. É que minhas palavras saíam aos coices, desesperadas por selecionar o que precisavam calar, por tentar impedir que a ironia respondesse por elas. Porque quando sou colocada em tribunais cujo desfecho é outro que não a absolvição é a ironia que quer me salvar, salvar meu orgulho, minha chance de maquiar as aparências que derretem em rios de água salgada.

O caso é que eu lutava contra um insidioso desejo de espalhar minhas lágrimas em você, de deitar a cabeça em seu peito e dizer que, sim, eu já sabia daquilo tudo, eu conhecia todas as suas vozes, eu previa cada uma de suas angústias. Eu queria gritar que o culpado era o seu medo, a minha corda bamba e a repulsa que sentimos da felicidade.

Queria esmurrar partes milimetricamente incalculadas do seu corpo e beijar seus olhos e segurar seu abraço por um minuto a mais. Minha fragilidade esparramada queria caber em suas mãos fechadas, na textura caprichosa de seus lábios ressentidos.

Eu estava sendo acusada e não podia pedir outra coisa que não sua voz em sobressalto dizendo que me amava, que pararia o mundo por mim, que queria tudo como era antes. Eu não queria perder seu descontrole, o tremor rancoroso em sua voz, a gagueira infantil plenamente superada para expelir a raiva que você sentia por eu ser como sou.

No desvario daquela cena absurda, eu queria dizer aos soluços que te amava, e amava mais ainda o desconcerto dos seus olhos que não conseguiam me focar, a forma como eu enxergava em você o menino daqueles dias e o quanto eu estava orgulhosa de ouvir com clareza o que seu peito vociferava desde que o mundo era outro.

Eu queria sussurrar, já sem forças, que eu precisava mesmo de você para arrumar minha desordem, que meu desassossego só repousava em seu olhar e que só há dia para minha poesia, nessa e em outra vida, quando há você para instigá-la.

É claro que me satisfaço com suas palavras, mas também tenho uma vontade imensa dos seus silêncios.

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