Frio

Ele chega, mesmo quando eu penso estar protegida, mesmo quando já ensaiei meus costumes para a parte crucial da festa. Quanto mais madrugada, mais perigoso fica. Eu deveria virar abóbora à meia-noite, como prega o conto de fadas, mas não tenho vocação para princesa e insisto em rondar o horário dramático, o momento difuso em que o não pertencer fica pesado demais, indissipável demais.

Ele chega e se faz senhor. Tudo se torna glacial. De uma languidez perturbadora. Um tremor percorre o corpo de dentro para fora. Da alma aos poros em riste. Some primeiro o foco do olhar, é impossível captar com os olhos o que quer que seja vida. O pulsar, desconfio, some também, já que desaparece o calor, as extremidades amortecidas na apatia da palpitação, os órgãos impotentes cogitam hibernar.

Somem as palavras; cessa o desejo; aparece, mesquinha, a veleidade.

Ele chega, eu sempre espero. Não importa se naquele dia não o desejei. Se naquele dia resisti ao fingir. Se há dias ele não era alimentado por palavras. Basta vestir roupa de festa, traje de felicidade, sorriso de porta-retratos. Ele sente cheiro de perfume fora da caixa.

“Cadê o sorriso?”, pergunta o retratista enfadonho. Se alguém pudesse ouvir meus olhos, saberia que não há resposta a essa dúvida, e que não é mais familiar ao tempo o rosto do primeiro a perguntar. O problema maior é que o frio tem ouvidos de ar, e já sabe que qualquer deslize é o bastante para saber que é chegada a hora.

Ele chega. E sabe que eu não consigo dormir com os pés gelados.

2 thoughts on “Frio

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