Culpada

É preciso não beber nada. Ficar sóbria o quanto for possível. Por hoje, apenas – talvez – não ceder.

Acordar com a alma pesada é assim. Ficar pelos cantos ensimesmando os cantares, andar na linha para não desalinhavar os contados. É um traço difícil, frágil costura a que me liga à sanidade que eu insisto em construir.

Se há construção, entretanto, há desabamentos. É uma consequência, ainda que não se determine tempo. Nem preciso pensar a fundo para saber que a estrutura é mais delicada quanto piores forem os materiais que a formam. Não preciso dizer também que espero um ruir a qualquer momento.

***

Sou culpada. Não me lembro de ter negado. Nas vezes em que minhas palavras resvalaram na direção de me defender, você logo fez questão de se mostrar imune às minhas tentativas. Calei antes de qualquer deslize.

É pena você também não calar. Às vezes penso que as coisas que você diz fui eu que escrevi durante um sonho poético e premonitório e depois esqueci só para achar mais lindo quando alguém me dissesse. Há, pois, o perigo da beleza. A crueldade do que é belo é catastrófica.

É minha culpa, já disse? Pena que lançar minhas faltas em palavras não me faz menos culpada. Elas têm raízes profundas, e são cultivadas com água salgada. Em abundância.

***

É preciso ficar sóbria. Já me basta estar engasgada de palavras.

2 thoughts on “Culpada

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