Leminskiando – parte 3

“Não sei quem disse, não lembro agora, que o lugar dos poetas são as agências de publicidade e as salas de jornalismo”. Essa é uma das falas de Marco Vasques, que cometeu alguns livros, é crítico literário e gestor de políticas públicas. Vasques falou ao ALT também durante o Londrix. Na entrevista, evoca o Leminski catalisador de leituras, fundador e influenciador de linguagem. Principalmente, o Leminski poeta integral, portanto, eterno.

A importância da forma que ultrapassa as barreiras do fazer poesia e passa a ser marca no ser poeta.

Entrevista publicada em 18 de outubro de 2009, na edição 87 do Gazeta ALT.

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Gazeta ALT

Diagramação e arte: Jeferson Richetti
Edição: Anderson Antikieivcz Costa

Na balbúrdia do silêncio

Julliane Brita

Poetas geralmente não levantam cedo, principalmente os não burocratas. Marco Vasques, que, como disse, cometeu alguns livros, madrugou às onze da manhã para falar sobre outro poeta, o mitológico Paulo Leminski. A causa é muito boa. Alma afim e um dos pais literários de Vasques, Leminski é presença constante na vida do escritor, crítico literário e gestor de políticas públicas.

Rio-grandense por nascimento, tornou-se catarinense por circunstâncias da vida e leminskiano por uma coincidência e uma afinidade instantânea. No silêncio do lirismo que une almas-irmãs, a morte não foi suficiente para separar o que estava unido por algo maior e muito mais perene que a carne, esta que padece nos extremos da vida. O poema Leminski não morreu há 20 anos, ainda enfeitiça muitos.

ALT – Quem foi Paulo Leminski para você?

Marco Vasques – Paulo Leminski para mim não foi, ele é. É uma figura muito presente na minha vida porque minha primeira experiência de leitura se passa pela descoberta de uma obra dele. Um dia eu estava trabalhando numa lanchonete de rodoviária em Joinville como balconista. Eu atendi um senhor de gravata que pediu um pingado [leite e café] e um pão com burrinho, uma coisa tradicional de Joinville. Servi esse homem e fui carregar o freezer; de repente eu virei as costas e esse senhor tinha se evadido do espaço e tinha deixado dois livros sobre o balcão. Um desses livros era o “Distraídos Venceremos”, do Leminski, e o outro era uma Antologia Poética do Paul Éluard. A partir desse momento, as coisas se abrem para mim, a literatura se abre para mim. Então para mim Leminski é uma espécie de um pai, no sentido que, na hora em que eu me defrontei com a poesia dele, eu não saí mais dela. Eu me emociono quando eu falo dele, porque ele é um gigante pra mim. Eu acho que as opções que o Leminski fez de levar às últimas consequências a ideia de ser um poeta integral, de não ser um poeta burocrata, de ser um poeta 24 horas por dia, tudo que o Leminski fazia na vida dele, no jornalismo, na prosa, na poesia, tudo que ele fazia era uma coisa integral. As consequências que ele tirou disso foram duras, mas com certeza o Leminski, 20 anos após a morte dele, deixa um legado para as gerações futuras incomensurável, talvez um dos autores que deixou o maior legado de como ser poeta, de como fazer poesia.

ALT – Como pode ser descrito o perfil intelectual de Paulo Leminski?

M. V. – Eu acho que o grande barato é tentar desmistificar uma coisa que se tem do Leminski drogado, bêbado… Nós nunca podemos perder de perspectiva que ele foi um seminarista, então ele tinha uma cultura clássica muito sólida. E ele é um catalisador. Uma coisa é você ler Joyce, ler Ezra Pound, outra coisa é você absorver isso e catalisar. Ele faz dessas leituras um mix e consegue transformar isso em poesia. Ele é um grande teórico. O que é o Leminski no início da década dele? O primeiro livro dele, curiosamente, é o “Catatau”. O Leminski já nasce pronto. É muito curioso isso, porque o primeiro livro dele é um puta de um experimento. Como é que você entende, em 75, uma figura que está tateando num meio literário de repente aparecer com uma obra fundadora? E eu não consigo conceber daqui a 30 anos, por exemplo, nós teremos 50 anos sem Leminski, qualquer pessoa que pense em fazer literatura no Brasil, em discutir estética – porque essa era a questão do Leminski, não ler isso –. Ele dizia assim: “A linguagem está a serviço da vida, não a vida a serviço da linguagem”, ou seja, ele vive para construir linguagem –. Essa frase é perfeita para definir o surgimento do “Catatau”, para definir toda a trajetória dele. E ele é definitivamente um poeta preocupado com forma. Quando eu falo no Leminski, a única relação que eu consigo ver, porque há muitos estudiosos que querem relacioná-lo com a Beat Generation, a grande relação entre eles é a questão de atitude de vida. Quando o Ginsberg procura saber sobre o budismo, ele vai às últimas consequências, e o Leminski vai às últimas consequências de todas as experiências que ele faz. Ele é um inovador em todas as áreas. Então o Leminski é definitivamente um poeta fundamental para qualquer geração anterior ou posterior daqui para frente.

ALT – Como conhecer toda a poética leminskiana influencia no seu trabalho de escritor?

M. V. – A minha procura estética é um pouco diferenciada da do Leminski. Agora, as influências são sempre bem-vindas no sentido de formar leitor. Acho que a grande influência que o Leminski pode ter, e isso vai ser carregado comigo para o resto da vida, é que eu aprendi a ler poesia com o Leminski. Tu queres coisa mais bacana que isso? Eu aprendi a ler poesia com ele, eu não aprendi a ler poesia com o Joãozinho da esquina ou com aqueles catatais que as professoras de segundo grau te enfiam. Eu aprendi naturalmente, e depois eu fui descobrir outros poetas. Fundamentalmente é isso. Eu sou grato ao Leminski porque tudo que eu sei de poesia vem dele.

ALT – Você diz que o Leminski é um catalisador. De certa forma, o jornalismo também precisa dessa postura para absorver os fatos e o que vem antes deles. O que o Leminski jornalista tem a acrescentar hoje para que o jornalismo automatizado que ele denunciava encontre uma saída?

M. V. – O Leminski era acima de tudo um cara bem informado e um bom publicitário, ele tinha sacadas para tudo a qualquer hora. A passagem dele pelo Jornal de Vanguarda, da Bandeirantes, poderia mudar muito o jornalismo brasileiro de alguma maneira. Não sei quem disse, não lembro agora, que o lugar dos poetas são as agências de publicidade e as salas de jornalismo. Muitos poetas têm realmente essa dinâmica de inovação, e ele como jornalista inovou trazendo matérias sobre grafite, literatura e poesia num lugar que comumente não tem espaço para isso. Na televisão brasileira hoje o espaço do livro é exíguo. Eu acho uma hipocrisia terrível todo mundo falar de leitura, dizer que ler é bom, aí você pega uma programação de televisão, você tem propagandas de qualquer coisa, sobre tudo e mais um pouco, menos sobre leitura. Eu não gosto muito disso que acontece com a Flip [Festa Literária Internacional de Parati] e com outros eventos de literatura, que daí o jornalismo tem um pouco de culpa em estratificar isso, que é a carnavalização do autor. Por exemplo, o Leminski por muito tempo foi carnavalizado, a figura mítica, as pessoas querem comer o autor, querem devorar o autor quando deviam devorar a obra dele. No caso do Leminski, é uma coisa muito específica, ninguém que leia a obra dele vai conseguir desassociar da vida dele; e assim deveria ser com todo poeta. O poeta deveria manter a coerência de sua trajetória. Achei muito espantoso quando o Toninho Vaz disse que o Leminski não tinha psique. Isso é de uma crueldade… Mas voltando à questão do jornalismo, eu acho que é um caminho a ser perseguido esse que o Leminski trilhou. O jornalismo brasileiro, grosso modo, largo modo e hipermodo, é pasteurizado, geralmente é fruto de um monopólio muito cruel. Você vê o que é o Fantástico, a Veja, a IstoÉ, os caras conseguem destruir qualquer informação. Cabe à nova geração do jornalismo, que está preocupada com essa inovação, tentar modificar isso, tentar achar um meio. Também não vale copiar. O Leminski fez aquilo que era possível no tempo dele, com todos os recursos tecnológicos, tudo era muito precário. Hoje nós temos uma gama de recursos tecnológicos, é muito mais possível inovar se tiver uma mente brilhante igual a do Leminski.

ALT – Você não o conheceu…

M. V. – Infelizmente não o conheci pessoalmente, mas eu sinto que ele está ao meu lado todo dia. Eu acho que são poetas que estão comigo sempre e que eu me emociono quando falo. A Ana Cristina, parece que eu vi ela se matar, e parece que eu caminhei com o Leminski na saga dele. Torquato Neto também é um poeta que parece que está próximo de mim. É a minha formação, tudo que eu aprendi num determinado ponto da minha vida veio a partir do entrave, do embate com a obra dessas pessoas. É o teu germe, é onde tu começas a formular os teus raciocínios, a olhar o mundo. A leitura é o cotidiano. Você lê a sua rua primeiro, quando você é criança, depois o seu bairro, a sua cidade, depois o corpo da sua namorada, um livro, depois você lê o seu país, o mundo, depois você começa a ler as fantasias, aí você vai além-mundo. A leitura não é basicamente você sentar numa poltrona e ficar ali parado. Tudo que atravessa o teu olhar e entra é leitura. Eu tive a sorte de ter esse atravessamento, o Leminski entrou não só pelo olhar, entrou pelos poros, pelo intelecto, com livros… A grande coisa que poderia ser feita pelo Leminski hoje no Brasil seria uma reedição da obra completa dele por uma única editora. Entra na Internet, a primeira edição do “Catatau” tá 200 paus. Agora, essa é a grande questão de política pública, no meu entendimento, o Estado do Paraná tem esse compromisso com o Paulo Leminski. Eu sou gestor de políticas públicas e acho que é um dever cívico do Governo do Estado do Paraná, porque o Leminski é um poeta público. Procurar com quem estão esses direitos autorais, comprar os direitos autorais e ir a uma grande editora, que circule em todo o País, e dizer “nós vamos publicar 50 mil exemplares, 100 mil exemplares, 200 mil exemplares de todos os livros do Leminski e vamos distribuir em todas as escolas do Paraná, vamos dar acessibilidade à obra dele no Brasil inteiro”. É um dever cívico que o Governo do Paraná tem o com o maior poeta que a história da literatura brasileira pode ter criado.

ALT – Qual texto dele é o seu predileto?

M. V. – Não há nenhum específico, eu gosto muito da obra dele toda, gosto muito de “Agora é que são elas”, que eu acho um livro injustiçado, é um livro para ser redescoberto. O “Catatau” é sem dúvida a minha predileção fundamental, e tem umas frases dele de que eu gosto muito, tipo: “Quem come pedra sabe o cu que tem”. Tem um poema dele que eu não lembro exatamente de cabeça, eu declamava isso: “Cagam ricos, cagam padres, cagam reis e cagam fadas. Não há nada que se compare à bosta da mulher amada”. Era alguma coisa assim, não era exatamente isso, porque eu não me lembro de cabeça, mas ele ironizava essa coisa do seminário onde ele esteve, ele fez uma brincadeira, naquela pujança, que não sei se nós encontraremos de novo na literatura brasileira.

ALT – Se você tivesse oportunidade de dizer alguma coisa a ele, o que diria?

M. V. – Se eu tivesse a oportunidade de me encontrar com ele, eu ficaria em silêncio. Eu entendo que, como um homem que absorveu toda a cultura oriental, ele entenderia o que isso quer dizer. É isso.

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