Leminskiando – parte 2

O paideuma leminskiano

A primeira entrevista de fato sobre Leminski publicada no Gazeta ALT trouxe a voz do jornalista e biógrafo de Leminski Toninho Vaz. “O bandido que sabia latim” tem a ingrata tarefa de contar a história de uma pessoa com tantas referências que não caberiam na obra de toda uma vida.

Toninho Vaz foi bem-sucedido, até pelo reflexo de uma amizade de 15 anos com o poeta curitibano. Na entrevista, Vaz deixa explícita essa relação e faz várias marcações que indicam a atualidade de Leminski. O Leminski professor, agitador cultural, revelador de talentos, comprometido com a evolução da linguagem.

Nada, vale frisar, é mais atual que a universalidade de se trabalhar com a linguagem. E Leminski é, ele próprio, um dos guardiões do universo da linguagem, armado que estava com palavra. “Aliás, ele era uma metralhadora giratória se você for ver por esse ponto de vista”, como disse Toninho.

Entrevista publicada em 11 de outubro de 2010, na edição 86.

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Gazeta ALT - Edição 86

Diagramação e arte: Jeferson Richetti
Edição: Anderson Antikieivcz Costa

Um catatau de vidas

Entrevista e fotos: Julliane Brita

A Toninho Vaz não cabe o tratamento de senhor apesar da barba e dos cabelos brancos; aliás, quando o encontramos, recostado no balcão do bar da Vila Cultural Cemitério dos Automóveis, em Londrina, além de refutar qualquer formalidade, afirmou ele ser capaz de baixar o próprio Leminski depois da segunda dose se fosse necessário.

Ninguém duvidou. Afinal, ser biógrafo não é um trabalho fácil, é preciso desenvolver habilidades inimagináveis.

É sempre uma janela aberta sobre um abismo contar uma vida inteira em um livro; por mais páginas que o exemplar de papel tenha, nunca terá a complexidade do descrito. No caso de Paulo Leminski, a árdua tarefa ficou a cargo do jornalista curitibano que tem na bagagem 15 anos de amizade com Leminski e a biografia de outro personagem contracultural brasileiro, Torquato Neto. Toninho Vaz, vestindo uma camiseta com o título de um dos livros de Leminski – Distraídos venceremos –, falou ao ALT sobre o amigo e sobre a figura mítica do Poeta do Pilarzinho. Se Leminski deu as caras por lá, não podemos provar, mas que ficaria feliz em ver alguém vestindo um de seus poemas, isso ficaria.

ALT – Quem foi Paulo Leminski para você?

Toninho Vaz – Paulo Leminski foi, antes de qualquer coisa, meu amigo. Eu conheci o Paulo desde antes de ele ter essa fama de uma vivência como poeta e literato. Ele era quatro anos mais velho do que eu; eu tinha 22, ele tinha 26. Eu me tornei amigo do Paulo, admirador, porque me fiz aluno dele sem o ser. Eu já estava na faculdade e ia aos cursinhos pré-vestibular para assistir às aulas que ele dava, porque eram muito interessantes, eram aulas que me fizeram gostar do aprendizado, do saber, da literatura, porque ele sabia ensinar. Eu ia lá, me sentava na última carteira, eu não era nem aluno matriculado no cursinho dele. Se você sentasse lá, você não descobria qual era o assunto da aula. Se era inglês, geografia, português. Porque ele misturava tudo, ele não tinha essa coisa estanque. Eu lembro bem, nos anos 60, quando o Leminski tirou de dentro de uma sacola um disco de vinil e abriu uma radiolinha daquelas que a tampa era o alto-falante, rodou o vinilzinho ali e dizia assim pra turma:

“Anote aí, ele se chama Bob Dylan, com ípsilon”.

Hoje eu acho graça disso, porque eu tenho todos os discos do Dylan e, embora eu já o conhecesse, os alunos de um modo geral não conheciam. Ele prestava esse tipo de serviço à cultura. Depois, o meu amigo Leminski se tornou um poeta conhecido no quarteirão dele, e depois em Curitiba. E o resto a gente já sabe.

ALT – Você disse em seu livro que conheceu Leminski no início de seus estudos de jornalismo e que, depois disso, esses estudos começaram a fazer sentido. Como ter conhecido o Leminski influenciou em sua carreira de jornalista?

T. V. – A maior influência que eu tive na minha carreira é o Leminski. Nem os meus professores tiveram essa influência na minha vida. Eu era tacanha quando conheci o Leminski. Por razões inexplicáveis da vida, eu era um cara embotado. O Paulo percebeu em mim alguma qualidade, algum talento pra alguma coisa muito cedo. Ele não mentia, ele não brincava com esses valores culturais. Costumava até atacar aqueles que ele considerava falso e não gostava, e enaltecer aqueles de que ele gostava. Então, quando ele me falou assim de cara, eu me lembro bem desse dia, foi muito marcante pra mim, é como se existisse antes e depois daquilo ali: “Velho, você tem que continuar escrevendo assim, você tem que treinar mais, você tem que fazer uma cunha, uma coisa mais direcionada, porque você tem a pegada”. Eu não sabia que eu tinha a pegada, eu não sabia que tinha alguma coisa possível dentro de mim que pudesse reverter em trabalho dessa natureza intelectual. E, no entanto, levei a sério o que ele disse, e no processo de vida com ele, depois disso a gente viveu mais 15 anos de amizade, ele me viu crescer como jornalista. Quando eu fui correspondente da Globo em Nova York, ele ficou orgulhoso, porque eu dava esse retorno pra ele, eu dizia “você é responsável por isso, cara, pelas merdas e pelas coisas boas que eu estou fazendo”. Até hoje, por exemplo, que eu abandonei o jornalismo e só faço livros, a presença dele se tornou ainda maior. E eu continuo bebendo das fontes do Leminski.

ALT – Parece que agora a academia está revisitando a vida e a obra de Leminski. Qual é a importância disso?

T. V. – A novidade que eu trago, e essa tem sido a tônica das minhas palestras, é dizer que há algo de novo nesse horizonte do Paulo Leminski, e a coisa nova é que os garotos, os universitários, abandonaram aquele folclore da birita e das drogas a que ele estava ligado. Esses guris de hoje não estão mais querendo saber disso, eles estão mais interessados em saber se o Paulo Leminski tinha mesmo uma bagagem capaz de representar o sentimento deles, jovens, com autenticidade e honestidade, coisas que os meninos procuram aí. Eles são estudantes universitários, eles são a academia, eles são cúmplices desse status que o Leminski passou a gozar de poeta, depois de 20 anos de morte, consolidado, e cada vez mais o folclore da boemia dele vai se extinguindo.

ALT – Qual o seu texto predileto do Leminski?

T. V. – O “Catatau”. Eu acho um trabalho notável, de pouco acesso, pouco digerível, difícil, pra iniciados; como Leminski dizia, é texto de escritor para escritor. É uma homenagem ao Guimarães Rosa, uma referência a “Grande Sertão: Veredas”, que é um texto que a gente sabe que meia dúzia leu. O “Catatau” tem essa característica, mas a importância dele é como ponta de lança de uma vanguarda de linguagem que se usava nos anos 60 – ele começa a fazer esse livro em 66 –. Não era um texto que queria vender livros, pelo contrário, enterrava os editores. No entanto, é como ele dizia, “John Cage um dia vai ser música de elevador”, já é; o Paulo Leminski já é best-seller… Esses caras fizeram com que a linguagem avançasse; o contrário disso é “Meu pé de laranja lima”. Com todo respeito, há muito mais milhões de leitores para o “Meu pé de laranja lima” do que para o “Catatau”, mas o meu texto mais sagrado do Paulo é esse.

ALT – Você comenta que é um texto para iniciados. O que você diria a uma pessoa que deseja se tornar um iniciado para ter acesso aos textos de Paulo Leminski?

T. V. – Na palestra “Introdução à poética de Leminski”, ofereço ao leitor uma ideia de alicerces em que ele estruturou essa poética dele, ou seja, uma coisa que ele pinçava de Ezra Pound, é o paideuma poundiano. O que é isso? É um sistema que fornecia às gerações futuras de onde ela deveria começar a ler. Esse era o abecê da literatura do Leminski. O paideuma do Ezra Pound são os ícones, todo o resto é seguidor, diluidor. Então ele coloca lá em cima só os gregos, as sumidades, a coisa mais erudita possível. Eu criei um improvável paideuma leminskiano, que são aquelas influências que o Leminski recebeu. Começa com o “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, que foi o primeiro livro que o marcou, por razões que vêm de o pai dele ser militar e de ele ter viajado em acampamentos militares no interior do Brasil. Aí você vai vindo com ele, com os clássicos, os românticos, o Fagundes Varela, o Olavo Bilac, com aquilo tudo que tá no currículo. Aí você pula pro modernismo, a literatura estrangeira, europeia, Baudelaire, e o resgate da crítica. Daí ele vai para os Concretos, os irmãos Campos e Décio Pignatari, que foram os que apresentaram a ele o Ezra Pound. Uma pessoa interessada em se aprofundar nesse viés literário do Leminski e adjacências deve tentar ler o “ABC da Literatura”, do Ezra Pound, que não vai servir muito porque você não vai começar a ler línguas mortas agora, mas você entende o sentido da escolha do criador e a necessidade de você se desvencilhar dos diluidores, o cara que tá imitando aquele lá em cima. O Leminski tem um critério, ele era um grande professor por causa disso. Entre os modernistas, ele vai preferir Oswald de Andrade em relação ao Mário [de Andrade]. Por quê? Porque experimentava mais a linguagem. O papel do Leminski como vanguarda nos anos 60 era esse, era de ir pra frente. O texto comportado era uma coisa que não precisava de ajuda, não precisava de incentivo, é isso que se consume, o bestseller.

ALT – Leminski disse que a poesia diz “eu denuncio”. O que, em sua opinião, ele queria denunciar com a experimentação da linguagem que ele propunha?

T. V. – Eu não sei o que ele queria denunciar, ele queria dizer que a poesia pode denunciar. Por exemplo, nos anos 60 e 70, na ditadura militar, o Leminski sofria em Curitiba porque era considerado um poeta de direita, porque não fazia texto engajado. A poesia dele camuflava uma rebelião, e, no entanto, aquela visão estreita dos poetas engajados em partidos, facções políticas e outras coisas do gênero, queria a palavra explícita, como “Unidos venceremos”. O Paulo Leminski faz “Distraídos venceremos”. É o contrário. Não pegue na arma, cara, vai cuidar dos teus filhos, vai namorar com a guria na cachoeira, faça as coisas com a perfeição ética que você tem que fazer que você muda o mundo. Ele nunca foi de direita; assim que ele pode, publica uma biografia do Trótski. Ele acreditava na forma revolucionária e não nesse conteúdo revolucionário. Ele não acreditava que palavras de ordem movimentassem pessoas. Você conseguia fazer isso no ABC Paulista, numa fábrica de metalúrgicos, porque os caras estavam atrás do salário deles. Não era um engajamento exatamente intelectual e político sobre o que acontece no País. Enquanto que o Leminski é de uma esfera intelectual, é feito um pensador, não vai pegar em pistola. A pistola para ele era a palavra. Aliás, ele era uma metralhadora giratória se você for ver por esse ponto de vista.

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A primeira parte da série pode ser lida aqui.

2 thoughts on “Leminskiando – parte 2

  1. meu, essa viagem pra londrina foi muito legal. Ouvi falar que esse livro dele foi ou será reeditado com material extra. Enfim, eu não tinha reparado, mas essa coluna do meio não parece uma gravata? abraços

Seu mimimi aqui.

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