Fluxo de consciência

Acordei no meio da noite. Pela vigésima vez, doze das quais chorando, cinco crescendo, três morrendo. Olhei, certamente não pela última vez, se as chaves estavam ao lado do travesseiro. Não estavam, e minha mentira cresceria a cada palavra falida com que eu tentasse te encantar.

O encanto, nota-se com pesar, não se compra a preço baixo. Quem doma palavras é sempre, antes de tudo, domado.

***

Quando meus pés me levaram sem muita objeção para dentro do ônibus, eu mal realizei há quanto tempo não repetia essa ação que fora comum em outra era da minha vida – vivo em eras, você já deveria saber -. Meses, anos, e meu equilíbrio já tão faltoso não sabia fingir o comportamento de antes no sacolejar das quadras buracos desvios curvas

Queria descer no primeiro ponto, voltar à casca da qual, invariavelmente, me arrependo de ter saído uma quadra depois, agradeço por ter deixado na seguinte e que me esforço para esquecer depois de quinhentos metros, mas houve um aspecto de passado pelo qual sou seduzida por certo.

O ônibus mudando de rota – há tanto tempo entre as eras que os caminhos todos mudaram – faz renascer o medo pueril de ser conduzida sem minha vontade, mas despertou algo que mesmo os tantos aniversários que me separam da menina medrosa não pensariam possível. Ele me fez querer ficar. Eu fiquei.

Seu mimimi aqui.

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