Leminskiando – parte I

Leio Leminski desde que não consigo lembrar, quando minha mãe, professora do Estado do Paraná durante 33 anos, ganhou uma coleção de livros da Secretaria de Educação em que figurava o nome do polaco até então desconhecido para mim.

Devorei o livro, mas não tive acesso a mais nada de Leminski durante muitos anos. A figura ficou em banho-maria até que ressurgiu tardiamente, em 2007, quando eu já estava na universidade, e tornou-se, como eu digo no texto abaixo, aquele que me deu esperança. E aqui vale um agradecimento especial ao mentor que possibilitou isso: Doutor Silvio Ricardo Demétrio, professor e multiplicador de sólidos conhecimentos culturais em cabecinhas frágeis das salas de comunicação do Velho Oeste.

Aí, Paulo Leminski não era só mais um escritor paranaense de um livro que eu li na infância. Revelou-se a mim o poeta, o jornalista, o publicitário, o multimídia. Um avis rara que me trazia novos caminhos para pensar o texto em todos os âmbitos em que eu me aventurava – bem inocentemente, a propósito -.

Foi com muita felicidade que vi o bandido que sabia latim ressurgir e cair nos dedos de internautas que descobriram o haicai como possibilidade para as palavras rápidas da rede. A publicação de “Toda poesia”, pela Companhia das Letras, foi comemorada como um gol em final de Copa do Mundo. Eu e a trupe que respirava Leminski na mesma época fazíamos nossas rezas budistas para que tudo de Leminski fosse reeditado.

Agora, depois de alguns anos longe do Gazeta ALT, o caderno de jornalismo literário e cultural de que orgulhosamente fiz parte, reproduzo aqui as entrevistas sobre Paulo Leminski que tive o prazer de fazer durante 2009, ano em que produzi meu trabalho de conclusão de curso com a ajuda dos mais incríveis companheiros – Jeferson Richetti, Anderson A. Costa, Bruna Hissae, entre outros não menos importantes -. O primeiro texto saiu na edição 85, de 4 de outubro de 2009, e foi reproduzido na íntegra abaixo.

Os próximos vêm com mais histórias, que esta já está quase mais longa que minhas letras no próprio ALT.

***

gazeta-alt-ed85-04-10-09-leminskijpgDiagramação e arte: Jeferson Richetti
Edição: Anderson Antikieivcz Costa

Um ponto do conto que não se conta

Julliane Brita

Almir Feijó, em 1978, perguntou a Paulo Leminski qual era a bronca dele com o conto. Afinal, um literato, signo de virgem, de 24 de agosto de 44, nascido em Curitiba, que vivia literatura pelos poros, era contra uma forma da arte em que foi mestre. Novidade não é que ele pensava a forma como poder, e este era especificamente o ponto que o movera, que o fez movimentar uma passeata contra o conto e carregar um cartaz que dizia:

O CONTO
MORREU!

A bronca, de fato, disse o Polaco, referia-se à facilidade gerada pela forma do texto que conta uma história mais curta que o romance. “O conto representou, no Brasil, a mesma coisa que o Volkswagen representou, em termos, digamos, vários. O Volkswagen colocou a classe média sobre rodas e o conto deu a todos a ilusão da possibilidade de uma carreira literária, que é uma coisa bem mais complicada. E o conto tomou conta. Foi amarrado por concursos patrocinados por estados da Federação. Por entidades oficiais. Por revistas particulares. Foi cercado de todo um poder de tal forma que hoje é o gênero hegemônico, o gênero no poder no Brasil. É aquele que conta com o maior número de facilidades editoriais. É aquele que encontra abertas as portas das editoras. É aquele que é contemplado com as mais polpudas premiações estaduais, premiações já milionárias. É uma verdadeira loteria literária que o conto proporcionou no Brasil. Sou contra isso que se faz em torno do conto e com o conto. Obviamente, não sou contra uma forma, apenas. Aí se trata mais do que uma forma. Se trata de todo um negócio. Um grande negócio que se fez em torno do conto. Pra mim, em detrimento, digamos, da produção propriamente literária. Da produção textual”.

Leminski, intelectual multimídia que tratou da linguagem como ponto central do trabalho que exerceu em muitos campos, tinha uma visão evolutiva da literatura. Pensava ele que o texto, o fazer literário, evolui como a ciência. E ele estava comprometido com essa evolução. “Acho que o conto é acadêmico, que ele retarda essa evolução. Retarda porque, principalmente do modo como ele vem sendo encarado no Brasil, é uma espécie de última defesa do sistema literário que está completamente bichado pelos grandes meios de massa em volta dele e que tendem a dissolvê-lo. (…) O conto é um fator da involução textual. Tem funcionado como uma força conservadora e retrógrada. A existência dele impede que o texto ganhe a dinamização que vem dos grandes meios de massa e que tenderiam a transformá-lo numa outra coisa, já, inclusive, para além da própria categoria de literatura, que não me interessa mais. Pra mim, a literatura não passa de um fetiche universitário”.

Antes que afoitos recriminem um comentário que não entendem, Leminski renegava a literatura da forma que estava sendo produzida – e não podemos dizer que muito tenha mudado desde lá –. O comprometimento do “bandido que sabia latim” passara a ser, àquela altura da vida, já aos 34 anos (dez antes da morte prematura), com uma coisa para ele mais complexa, a cultura. Se ele gritou que o conto morreu, uma forma tornada descaminho e involução, é porque a inquietação gritou mais alto. Da mesma forma que berrou a vida inteira nos ouvidos de bigode e sagacidade linguística.

Chamaremos Leminski, neste caderno, de “escritor”, “poeta”, “intelectual”; mas a amplitude da aura que exala a obra e os contados da vida desse paranaense parece fugir ao campo semântico de quaisquer dessas palavras. É preciso, entretanto, dizer. Que há vinte anos ele deixou a vida-poesia que vivia de forma ressoante, mas a linguagem foi tão pensada que o conta até hoje. E nós o contaremos também, pelas próximas edições, com entrevistas exclusivas de pessoas que o conheceram ou que admiram e estudaram a obra profícua. Deixa-nos um tanto menos preocupados o fato de que o próprio sui generis ofereceu-nos algumas autodenominações, que usaremos sem pedir licença: “cachorrolouco”, a “besta dos pinheirais”, o “ex-estranho”, “o que chegou sem ser notado”, o “anarquiteto de desengenharias”, o “bandido que sabia latim”.

Semelhante trajeto de palavras-definição fez o poeta Haroldo de Campos quando o determinou o “Rimbaud curitibano com físico de judoca, escandindo versos homéricos, como se fosse um discípulo zen de Bashô”; o chamou ainda de “intelectual completo”; Helena Kolody, suavíssima poeta paranaense que bem o conheceu, nele identificou “um marco original e luminoso em nossa literatura”. Se Augusto de Campos, outro de nossos poetas, o

denominou o “maior poeta brasileiro de sua geração”, não somos tão generalistas nem seríamos capazes de o encaixar num determinismo menor. Quando nos perguntam quem foi Paulo Leminski, dizemos apenas, com variações insignificantes, que foi aquele que nos deu esperança.

Injustificável até determiná-lo com números e histórias não nossas. Entretanto, é necessário dizer aquilo que já disse no começo e retirei da descrição que o brasileiro Paulo Leminski Filho fez dele mesmo. Filho de Paulo Leminski – por sua vez, filho de poloneses da província de Naráyow – e de Áurea Pereira Mendes, filha de um paulista e de uma paranaense, faleceu na mesma cidade em que nasceu, no dia 7 de junho de 1989, aos 44 anos. Na precocidade bela dos poetas, Leminski diz ter feito o primeiro poema aos oito anos, “O Sapo”, “cuja temática remetia à vida campesina e bucólica do interior do Brasil”.

Entre detalhes talvez refutáveis e esmeros de nossa parte com relação ao ídolo recrutado a figurar em nossas páginas, gostaríamos de lembrar que a vida de um poeta é, por vezes, o mais refinado poema deixado por ele. Fomos em uma equipe afinada buscar as entrevistas que apresentaremos por estas páginas em uma terra muito diferente apesar dos apenas 400 quilômetros que nos separam dela. A cidade de nome inspirado em Londres nos encantou pelo Londrix – Festival Literário de Londrina, realizado de 22 a 27 de setembro.

A quinta edição do festival relembrou os 20 anos da morte de Leminski e nos ofereceu duas oportunidades únicas se consideramos nossa pífia localização geográfica: ouvir sobre Leminski e participar de um evento literário – coisa inexistente por aqui –. Um evento, por sinal, patrocinado pelo governo do Estado e pelo município de Londrina, que fizeram o que não se vê com frequência: incentivaram e não atrapalharam com pedantismo e verborragia. Sobrepôs-se, então, a ótima direção de Christine Vianna e Marcos Losnak, e a colaboração de muitos outros nomes que foram mais braços, pernas, cérebros e vontades.

O dia que nos recebeu foi a sexta-feira, 25 de setembro, em que o jornalista Toninho Vaz, escritor da biografia de Leminski “O bandido que sabia latim” (2001), discursou com o título “Introdução à Poética de Paulo Leminski”. De quebra, assistimos à mesa com os escritores Marco Vasques, Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, de tema “O Universo Leminskiano”. Todos muito solícitos e dispostos a relembrar Leminski para que o mito não vire superficialidade.

As entrevistas e o conteúdo das palestras oferecidas em Londrina figurarão nas próximas edições do Gazeta ALT. Nem em conto nem em haicai, forma oriental de poesia breve muito utilizada por Leminski, mas em palavras sinceras que pretendem reviver uma história que não morre facilmente e esgueira-se sutilmente humorada por mentes sedentas. Para o ponto ser lembrado e pedir mais, um trecho da entrevista de Maurício Arruda Mendonça.

“Paulo Leminski foi um grande poeta, prosador e ensaísta brasileiro. Sua marca, creio, foi conseguir unir informação de alto teor teórico e artístico com linguagem clara e ágil, capaz de dialogar com leitores especialmente os jovens. A formação de Leminski é uma proeza. Uniu os conhecimentos adquiridos em Seminário Beneditino (fortes no latim, grego e línguas modernas); conhecimento de história do Brasil, pensamento contracultural, conhecimento das vanguardas literárias dos anos 50 e 60, a própria teoria marxista, o estruturalismo e, especialmente, o ativismo cultural, já que era um excelente polemista. Como podemos ver, um perfil que nos falta hoje em dia, e que foi momentaneamente ocupado por figuras polêmicas como um Gerald Thomas por exemplo (naquilo que ele teve de mais criativo). Estudando uma de suas obras-primas, o romance-ideia “Catatau” em meu mestrado, fiquei surpreso em constatar a quantidade de referências literárias, históricas e culturais que Leminski conseguiu reunir, uma coisa que, hoje, só se conseguiria com a Internet. Portanto, Leminski é sim um dos grandes intelectuais formados na leitura longa e meditada de muitos e muitos livros. É como eu digo: Leminski faz muita falta hoje, e creio que, se vivo, teria um dos blogues mais acessados de nosso País. Ele era talhado pra esse tipo de mídia”.

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