Falatório

Em meio à cena dos parabéns, a mãe nervosa balançava a criança, ignorante plena do fato de não ser o centro das atenções. Eu olhava, desconcentrada, a expressão de desespero do pequeno, o rosto deformado pelos gritos – em alguns casos, o som fere mais do que a lágrima – e imaginava o motivo do desespero que parecia não ter expectativas de acabar. O que o fizera abraçar o descontrole e sofrer a morte de 25 filhos queridos e amigos carinhosos?

Depois de um tempo, você passa a entender o exagero, a outra ponta da corda. Veja bem, não há o cabo de guerra se um dos lados não oferece resistência. Não há escape de uma situação extrema se não houver o pulo para o outro lado. Eu mesma, que vivo em hipérbole, só fui entender muito tempo depois, tarde demais até. Vivo em figuras de linguagem porque a linguagem crua nunca me bastou.

***

Sou viciada em autobiografias de redes sociais. Os pequenos erros de ortografia, as pontuações quase surrealistas, os risos onomatopeicos e descontextualizados. Gosto de imaginar as nuances de personalidade por trás das palavras escolhidas. Não acredito em inocência quando se trata de escolha lexical. O inconsciente, se é necessário grifar, é ainda mais culpado.

Costumo pensar no quanto a pessoa quer se esconder ou se mostrar. Entendo largamente os que escolhem representações diversas e fogem das palavras próprias. Gosto também de reconhecer pares. Sei bem como funciona o sujeito poético dos ensimesmados, sempre buscando formas de morrer na poética para não desfalecer no real. Tem gente matando lirismo a grito, quem sou eu para julgar. Eu mesma escolhi minha forma preferida de disfarce. Eu me escondo em hermetismos diversos.

***

Nessas várias noites em que não consigo dormir, ler ou escrever, eu penso. Pior das escolhas, porque é aí que noto que tudo isso tem origem numa só ideia: o cansaço. Não durmo porque passei tempo demais sonhando acordada. Desgastei o sonhar. Não leio porque passei horas a fio destrinchando buchos cheios de escritos malfadados. Arruinei o imergir. Não escrevo porque demorei muito tempo pensando no que dizer e gastei todas as palavras antes de serem usadas. Carcomi o dizer.

Tenho pensamentos cheios de nó ou pensamentos cheios de nós? Eu perguntei, mas o eco voltou-me uma zombaria qualquer. Desfiz a pretensa poesia, desfiei-me em prosaísmo. Se não me quer assim, me faz dormir, canta para mim uma canção de ninar corações-criança. Sobretudo, me deixe em paz. Não, não é que eu queira fazer mais pedidos. Quero, dessa vez, deixar um conselho não requisitado, como costumam ser todos os pareceres do tipo:

Não incite a poesia que você não é capaz de engolir.

[Não me deixe morrer empanzinada com a adiposidade desse lirismo.]

Seu mimimi aqui.

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