Gefirofobia

Na hora, eu disse que senti que minha segurança não estava mais comigo. A frase não foi exatamente essa, e, da forma com que as palavras se atropelaram para serem pronunciadas naquele momento, a segurança virou um corpanzil suntuoso que me guiava pela mão no caminho da vida. Sem ela, eu cambaleava perigosamente sobre a ponte, a motivadora da sensação de queda livre, o chão suspenso que iça meus temores mais fundamentais e pueris e os dispõe de forma desorientada na sala de estar.

Desde então, e desde muito antes, das pontes primeiras e do desespero incontido que tece cuidadosamente a malha dos pesadelos mais diversos, tento deixar a sala limpinha, tento recolher as mil coisas do chão e não parecer desesperada quando alguém precisa entrar em meu estar desconstruído. Vez ou outra, uma dignidade não minha consegue receber visitas e ficamos os dois cuidando para não erguer os tapetes e não aspirar muito profundamente o pó, a densa poeira de tudo que é velho e de que eu não consigo me desfazer.

***

“Gefirofobia”. “O quê?”. “O medo de ponte”. “Não sabia…”. Eu nunca havia me interessado em nomear a angústia que me tirava do sério, rareava o fôlego, me fazia conseguir tocar a urgência da morte. A morte urge e faz seu caminho numa ponte infinita da qual eu não consigo sair. A intolerância do medo, que paralisa justamente no momento em que só o deslocar afastaria a causa do que amedronta. O medo não é condescendente, não cede com carinho e palavra doce. O medo tem garras, é viscoso, e permanece em silêncio até que sua orquestra fúnebre seja chamada ao palco com seus todos desafinados instrumentos. O desconforto, a segurança que não sabe fazer o caminho de volta porque não consegue atravessar pontes. Eu não sei atravessar pontes para chegar a ela. Ficamos sozinhas. Há extremos intransponíveis.

***

Qualquer que fosse a resposta, senti minha segurança se esvaindo, envergonhada porque não encara a palavra medo. Não sabe pronunciá-la. O nó na língua. A garganta trancada. Uma sílaba depois da outra, não existe encadear. Era novamente uma ponte. Eu diante da ponte. Só que dessa vez eu sabia que não era uma travessia só minha. A segurança, eu a enxergava de costas, os soluços denunciando o choro. Um atropelo de palavras enfraqueceu as cordas, a ponte cedeu em vários pontos. Eu já não sabia medir o medo. A injustiça de ter que passar por ela sozinha, mais uma vez.

De repente, um som-quase-silêncio venceu os sentidos em riste e me fez olhar para trás. Outro caminho, uma estrada talvez sem pontes. A passagem para outro bonde. Eu me virei completamente. Não é como se eu não o ouvisse, o medo gritando, um desespero quase patético. Havia em mim uma vontade descabida de abraçá-lo. O medo, afinal, estava sempre na ponte. O medo ficou sozinho, eu querendo voltar, mas há outros caminhos a percorrer.

O medo perdeu o bonde, a esperança. Vai me perder também.

Seu mimimi aqui.

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