Procurando o sentido da vida no dicionário.

Manual de etiqueta da mulher feia

A mulher feia acorda todos os dias e não cabe nas roupas, não cabe no espelho, não cabe no espaço minúsculo que deixaram para ela na fila da satisfação.

O sorriso da mulher feia não cabe na boca, na fotografia, no rosto distorcido de lágrimas. Não é permitido sorrir, dizem à mulher feia, que engole a gargalhada, envergonhada, e depois de um tempo não se lembra mais de como é ter motivos para gargalhar.

A mulher feia sobra. Dos lados, na festa, na escolha, na lembrança de quem não sabe o nome dela. “Aquela feia”, aponta, sem nenhum dedo, para a fotografia repleta de gente linda que tem nome, mas não tem parcela de culpa.

A saída da mulher feia é encher. O boletim de nota, o corpo de roupa, o peito de angústia, a mente de nãos. Não pode usar saia não pode usar decote não pode usar shorts ou roupa colada não pode a perna de fora o braço de fora a vergonha de fora não pode vestir branco bolinhas listras aberturas tubinhos roupa larga e tremelique. A mulher feia não pode ter tique batom vermelho estampa grande não pode sair sem maquiagem sem carona certa sem salto alto sem saber exatamente o que dizer para fazer alguém rir.

Não pode deixar à mostra as feiuras, escancarar a barriga grande ou a perna fina. Não deve ofender o olhar, a mulher feia, com mais que o argumento fundamental de sua fealdade. Já que está, que não se dê. Não use chapéu, cor demais, tinta demais no cabelo. Não ouse usar o que é de mulher que não é feia. Não use ousar no geral.

A mulher feia não pode beber, não pode chorar, não deve reclamar. Não pode falar alto, não deve gostar em demasia de chocolate, não pode ter preguiça, dormir até tarde, ouvir música no máximo. Não deve deixar de pedalar, de abrir portas, de desentupir pia, de saber o significado de parcimônia, a Equação de Torricelli, os 12 trabalhos de Hércules e de ler Affonso Romano de Sant’Anna e Proust no original.

Não pode, jamais, a mulher feia dizer que é feia. A ela, resta ocupar o espaço de não estar apta, de não ser acolhida, de não ser amenizada. A mulher feia pode ser amiga, mas não deve ser avistada.
Acima de tudo, a mulher feia deve estar para não incomodar e não deve se ressentir.

Ressentimento só cabe em lábios bem traçados e corações delicados, o que também não cabe na mulher feia.

Sob encomenda do poeta

Amaram-se tão cedo que todas as histórias clichês de primeiro amor disputaram seus destinos de forma sanguinária.

Escaparam de todas.

Ao alcance dos olhos e em cantos encardidos, os romances todos começavam e terminavam como é do curso da vida.

Permaneceram intocáveis.

Beijaram-se maduros, na sapiência da contagem malvada do tempo.

Na narrativa invertida, todos os primeiros beijos vieram antes do beijo primeiro, censurado.

E, na noite sedenta de mistérios deslumbrados, incriminaram-se de poesia tardia.

E deixaram escorrer a areia movediça do dia, e fingiram que podiam recontar um conto de bobos.

Ouve: não há mais fadas; um amor que não se conta em meias palavras também não se mede em meia dúzia de beijos.

Não há contar que se baste. Não há história em nuvens.

Não se conta em dias, em poemas patéticos, em cartas de amor rasgadas.

Há os olhares cruzados, as mordidas de lábio, o abraço que tenta sozinho fundir os corpos.

Mas não há anos de cólera, dias nublados, outros desníveis corpóreos que o cessem.

Há outros goles, outras melodias, um tanto de peito rasgado.

Há outras bocas, outros dizerem, as memórias remendadas de tardes quentes e ouvidos ávidos.

 

Mas não se pode pedir história.

Num ponto sem nó, não há contar que se fia.

Em remendos, senhor poeta, não se faz poesia.

Os ignorantes são infelizes

Ensaiei dezenas de palavras que pudessem não só dizer, mas organizar meus pensamentos, os sentimentos que se alternam confusamente desde que se manifestou o cenário irrevogável em que hoje vivemos.

Não saiu o texto porque não se encadeou o pensamento.

A verdade, conceito sempre turvo, perdeu-se definitivamente no obscurantismo de um tempo em que as informações demoravam distâncias inteiras para virem à luz. Hoje é a própria luz que as traz à tona.

Na fragmentação desses tempos, entretanto, ficamos ainda mais perdidos. Ignoramos razões, estopins, embasamentos diversos. Ignoramos como chegamos a esse momento; ignoramos seu destino. Nosso destino. Ignoramos em que acreditar, ignoramos que livros ler ou reler para entender, para criar projeções. Ignoramos, e, por ignorar, nos perdemos em meio a tanta informação. Ignoramos quem ouvir, ignoramos o que dizer.

A ignorância, dizem, traz felicidade. Pois eu digo e vejo muito por aí: ignorar tem me feito sofrer muito mais.

O corpo fala

Quando disseram que o “corpo fala”, eu pensei que fosse outra coisa.

Até procurar “torcicolo” no dicionário:

Torcicolo
Derivação: sentido figurado.
ambiguidade de palavras
Ex.: quem quer ser bem compreendido deve evitar torcicolos

Estou tentando evitar torcicolos desde que me conheço por gente, mas, até quando não falo, meu corpo quer transbordar palavras.

31 de dezembro

Meu quarto está uma bagunça. Há roupas limpas e sujas misturadas, o que indica que colocarei tudo para lavar novamente. Há pilhas de livros sobre a escrivaninha, sobre a cama, embaixo do colchão. Alguns lidos pela metade, a maioria não começada. Calçados revirados me lembram das vezes em que cheguei de madrugada nos últimos dias sem saber muito bem onde deveria deixá-los ou onde havia estado com eles – se eu deveria mesmo ter ido é algo também a se pensar -.

Para não bater com o vento, a porta está apoiada em uma edição especial de “Ulisses” comprada em um sebo há uns quatro anos. A escolha do livro, veja bem, não é preciosismo ou ostentação. É que ele tem funcionado muito bem como peso em todos esses anos. O peso do fim de mais um ano em que não terminei de ler um dos clássicos. Em que deixei de ler várias coisas, assistir a vários filmes, fazer muitas das coisas que eu gostava.

Nada foi mais relegado, entretanto, do que as coisas que eu deixei de dizer. Do que tudo que eu gostaria de escrever. Há palavras acumuladas em todos os cantos, nas pontas dos dedos, escorrendo pelos cabelos caídos no rosto, que tentam em vão esconder as palavras gritando no canto do olho. Tentei, tantas vezes, esconder o que eu precisava dizer, mas os olhos, se você olhasse no fundo dos olhos, talvez conseguisse ler o que eu não tenho coragem de dizer.

Substituí minha lista de coisas a serem feitas no ano que vem por uma lista de coisas a serem ditas. Principalmente, a serem escritas. Quero guardar menos palavras nos cantos das minhas angústias. Depois de um tempo, notei que as palavras não ditas machucam mais do que aquelas que eu digo. E há várias cicatrizes das quais preciso cuidar com mais carinho.

O que deixei de falar

Você me perguntou se eu não me contentava com palavras. E eu não consegui responder, porque fui colocada em um tribunal fajuto, diante de uma testemunha muda e opressora, porque minhas lágrimas, tolas e envergonhadas, se atrapalharam ao escorrer, transgrediram os vales do meu rosto e impediram qualquer sentido de sair dos meus lábios desnorteados.

Não que eu não esperasse pela voz alterada, pelo tom quase ríspido. Não que eu não lhe desse razão. Não é que eu não compreendesse as hipérboles, os pleonasmos, as frases que pareciam sair prontas de pensamentos arquitetados em outros tempos.

Não que eu não tivesse justificativas cabíveis, rubricáveis e legítimas. Não que a cada colocação eu não cogitasse uma resposta justa para ser estilhaçada em seus olhos vermelhos – eu não sabia se prestes a chorar ou apenas rubros diante do momento áureo da explosão –.

Não é que eu não quisesse ouvir aquilo ou que não fosse capaz de suportar verdades empurradas goela abaixo do meu orgulho.

É que eu não saberia conviver com o encerramento daquela conversa – monólogo com participações não especiais –. É que minhas palavras saíam aos coices, desesperadas por selecionar o que precisavam calar, por tentar impedir que a ironia respondesse por elas. Porque quando sou colocada em tribunais cujo desfecho é outro que não a absolvição é a ironia que quer me salvar, salvar meu orgulho, minha chance de maquiar as aparências que derretem em rios de água salgada.

O caso é que eu lutava contra um insidioso desejo de espalhar minhas lágrimas em você, de deitar a cabeça em seu peito e dizer que, sim, eu já sabia daquilo tudo, eu conhecia todas as suas vozes, eu previa cada uma de suas angústias. Eu queria gritar que o culpado era o seu medo, a minha corda bamba e a repulsa que sentimos da felicidade.

Queria esmurrar partes milimetricamente incalculadas do seu corpo e beijar seus olhos e segurar seu abraço por um minuto a mais. Minha fragilidade esparramada queria caber em suas mãos fechadas, na textura caprichosa de seus lábios ressentidos.

Eu estava sendo acusada e não podia pedir outra coisa que não sua voz em sobressalto dizendo que me amava, que pararia o mundo por mim, que queria tudo como era antes. Eu não queria perder seu descontrole, o tremor rancoroso em sua voz, a gagueira infantil plenamente superada para expelir a raiva que você sentia por eu ser como sou.

No desvario daquela cena absurda, eu queria dizer aos soluços que te amava, e amava mais ainda o desconcerto dos seus olhos que não conseguiam me focar, a forma como eu enxergava em você o menino daqueles dias e o quanto eu estava orgulhosa de ouvir com clareza o que seu peito vociferava desde que o mundo era outro.

Eu queria sussurrar, já sem forças, que eu precisava mesmo de você para arrumar minha desordem, que meu desassossego só repousava em seu olhar e que só há dia para minha poesia, nessa e em outra vida, quando há você para instigá-la.

É claro que me satisfaço com suas palavras, mas também tenho uma vontade imensa dos seus silêncios.

Frio

Ele chega, mesmo quando eu penso estar protegida, mesmo quando já ensaiei meus costumes para a parte crucial da festa. Quanto mais madrugada, mais perigoso fica. Eu deveria virar abóbora à meia-noite, como prega o conto de fadas, mas não tenho vocação para princesa e insisto em rondar o horário dramático, o momento difuso em que o não pertencer fica pesado demais, indissipável demais.

Ele chega e se faz senhor. Tudo se torna glacial. De uma languidez perturbadora. Um tremor percorre o corpo de dentro para fora. Da alma aos poros em riste. Some primeiro o foco do olhar, é impossível captar com os olhos o que quer que seja vida. O pulsar, desconfio, some também, já que desaparece o calor, as extremidades amortecidas na apatia da palpitação, os órgãos impotentes cogitam hibernar.

Somem as palavras; cessa o desejo; aparece, mesquinha, a veleidade.

Ele chega, eu sempre espero. Não importa se naquele dia não o desejei. Se naquele dia resisti ao fingir. Se há dias ele não era alimentado por palavras. Basta vestir roupa de festa, traje de felicidade, sorriso de porta-retratos. Ele sente cheiro de perfume fora da caixa.

“Cadê o sorriso?”, pergunta o retratista enfadonho. Se alguém pudesse ouvir meus olhos, saberia que não há resposta a essa dúvida, e que não é mais familiar ao tempo o rosto do primeiro a perguntar. O problema maior é que o frio tem ouvidos de ar, e já sabe que qualquer deslize é o bastante para saber que é chegada a hora.

Ele chega. E sabe que eu não consigo dormir com os pés gelados.


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